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Entrevistas y notas / Um olhar sobre o construtivismo
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Mario Carretero

Um olhar sobre o construtivismo

Por Arthur Guimarães
Fuente: Revista Nova Escola on line
Edição 163 - jun/2003.

O psicólogo espanhol Mario Carretero conhece bem os prejuízos e traumas causados por uma educação mecânica e autoritária. Estudante na época em que o ditador Francisco Franco governava a Espanha (1936-1975), Carretero lembra-se com pesar das aulas rígidas na Educação Básica. "A única resposta que eu recebia era: guarde as informações de memória." Trabalhando com programas de formação docente, começou a pesquisar o funcionamento do processo de trocas conceituais, maneira pela qual conhecimentos antigos são transformados em idéias novas. Essas mudanças são, segundo ele, determinantes na aprendizagem. Hoje Carretero é catedrático da Universidade Autônoma de Madri e pesquisador da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais, em Buenos Aires. Nesta entrevista, ele critica o que chama de "simplificações dos conceitos envolvidos no construtivismo", como o de que há somente um conhecimento prévio e que ele pode ser avaliado com uma simples pergunta. Além disso, mostra estratégias para promover um aprendizado significativo.

Muito se fala sobre conhecimento prévio. O que é isso, exatamente?

A teoria construtivista evoluiu nos últimos tempos e começou a incorporar não somente as idéias de Jean Piaget (1896-1980), mas também as de Lev Vygotsky (1896-1934) e as da Psicologia cognitiva. Esse processo nos permitiu chegar à conclusão de que há diversos modelos de conhecimento prévio. Alguns estão diretamente relacionados aos conteúdos curriculares — informações sobre a Segunda Guerra Mundial, por exemplo. Existem também conhecimentos prévios gerais. Esses se formam pela utilidade da disciplina que está sendo estudada. Por que aprender isso? Como os pesquisadores levantaram essas informações? Eles não têm relação com assuntos específicos. São muito importantes, mas não tão explícitos.

Como o conhecimento prévio costuma ser avaliado?

Muitas vezes o professor acredita que basta entrar na classe e perguntar o que foi aprendido no ano passado. Essa visão é muito superficial. Ninguém aprende alguma coisa partindo do nada, mas sim usando suas capacidades intelectuais, cognitivas e sociais. Para avaliá-las não existe um modelo. O importante é utilizar diferentes métodos para identificar os conhecimentos prévios.

Quais são os melhores métodos para identificar conhecimentos prévios?

Um bom caminho é criar problemas em vez de resolvê-los. Isso estimula o pensamento e deixa brechas para verificar que conceitos estão dominados. Além disso, o professor pode mesclar perguntas para a classe com conversas individuais. Selecionando alunos de forma aleatória e dialogando sobre os conteúdos e as idéias de cada um é possível identificar o que a turma realmente pensa e sabe.

O erro pode ser considerado parte do processo de aprendizagem?

Sem dúvida. Ele não pode ser eliminado ou taxado como uma coisa ruim. O erro é um passo em direção ao saber. Cabe ao professor fazer com que o estudante chegue à concepção correta. Mas isso não significa fazê-lo repetir o que está no livro. O ideal é avaliar se ele obedece a alguma lógica, se tem uma idéia completa. E, acima de tudo, os educadores devem explicar para a turma como ela está evoluindo. Muitas vezes o jovem não tem consciência do que sabe. O metaconhecimento, a consciência do que se domina, é fundamental para a aprendizagem.

Como o conhecimento prévio pode ser modificado?

Nessa questão mora o perigo. É comum encontrar profissionais que acham que ele pode ser modificado facilmente. Acreditam estar promovendo a substituição de conceitos dominados por novos quando não estão. O professor faz uma provocação, ouve a resposta, mostra que o conceito é um pouco mais complexo e acredita que a classe vai, automaticamente, construir uma nova idéia sobre o assunto. Nada disso. A construção de um conceito novo é um processo difícil, que demora e demanda esforço. Ao mesmo tempo, as pequenas evoluções de cada dia podem culminar em mudanças conceituais profundas. Não é possível, no entanto, promover essas mudanças mais do que quatro vezes ao ano.

Se a substituição de um conceito por outro é tão complexa, como ensinar conteúdos novos?

O currículo deve ter menos conteúdos, vistos com maior profundidade. Acho contraditório falar em construtivismo sem pensar em diminuir o volume de informações. Há instituições que têm mais de 30 grandes temas no currículo. Por que ensinar 15 se nem o primeiro foi compreendido?

Que conseqüência traz um currículo inchado?

Há uma aceleração desnecessária, por causa do excesso de assuntos a tratar. No Ensino Médio, por exemplo, os temas são típicos do nível universitário. O livro de uma turma de 16 anos é muito parecido com o dos calouros de faculdade. Não há problema em estudar a fotossíntese, por exemplo, por dois ou três meses. Só assim é possível entender o sentido da Biologia.

Quais são as causas do excesso de conteúdos?

O problema começa na 4ª ou na 5ª série, e em todo o mundo. Além de muitos temas curriculares, há a pressão da família e da sociedade. Se um pai percebe que o filho não sabe qual é a capital da Rússia, fica desesperado e se pergunta: "O que ele aprende na escola?" Curiosamente, não causa mal-estar descobrir que o jovem não sabe diferenciar os poderes Legislativo, Executivo e Judiciário. Não se percebe que saber a capital da Rússia não é tão importante, mas entender a diferença entre os poderes é fundamental. O mais importante é compreender o conceito e usá-lo — não decorá-lo. Devemos construir aprendizagens significativas.

No que consiste uma aprendizagem significativa?

Ela acontece quando o estudante sente, com a própria vivência intelectual, o que está aprendendo. Ele precisa ter a oportunidade de mesclar teoria e prática. Saber o conceito de densidade, por exemplo, é essencial, assim como compreender de que maneira essa idéia é aplicada para transportar objetos por barco de um lado a outro do planeta. Em situações-problema como essa, o conceito funciona como uma ferramenta. E, assim como um martelo, um instrumento só tem sentido se tiver um uso. Aprender de verdade é manejar os conhecimentos com eficácia, com capacidade de resolver problemas. Mas cuidado: a prática não deve ser repetitiva nem passiva. Isso não tem sentido. O importante é aplicar o conhecimento.

Há uma nova maneira de pensar a prática docente?

Sim. Esse foi um problema enfrentado pelo construtivismo nos anos 1980, em vários países. A prática foi posta de lado de forma equivocada. Sem ela a aprendizagem não se consolida, o que dificulta o desenvolvimento cognitivo posterior. Precisamos dar novo sentido à prática, e não eliminá-la. Para aprender não basta compreender.

Um novo jeito de ensinar se aplicaria também à disciplina de História, por exemplo?
Creio que o ensino da História merece outro enfoque, ainda que também sofra com o excesso de temas. Nem tudo sobre a pré-história ou o século 20 é essencial. Melhor seria estudar alguns períodos, com mais profundidade. Além disso, ter consciência de que fazemos a história diariamente é muito mais produtivo do que decorar. É preciso tornar o estudo mais real, mais vivo.

Fatos recentes devem ser incorporados ao currículo?

Claro. Normalmente ensina-se a história do país onde a escola está. Isso não tem sentido, já que as nações não são mais o que eram no século 19. Os países estão desaparecendo como agentes da organização econômica e as nações estão sendo substituídas por entidades regionais. Meu passaporte me identifica como sendo da União Européia, não mais da Espanha. É muito mais importante para o aluno espanhol estudar a história da Europa do que a de seu país.

Quais as vantagens da mudança na maneira de ensinar?

A escola faria mais sentido para os jovens. Eles perceberiam que estudar é uma forma de se ligar ao mundo. Não é fácil prender a atenção deles, menos ainda nas sociedades modernas, em que a educação pública é obrigatória. O pai que deixa o filho fora da escola comete um crime. Como nem sempre o jovem estuda porque quer, só conteúdos atraentes para motivá-lo. Uma pessoa motivada vai em busca de objetivos. E esse empenho só se manifesta se existe afetividade e emoção.

 

"O currículo deve ter menos conteúdos, vistos com maior profundidade"

"Não é possível promover mudanças conceituais mais do que quatro vezes ao ano"

"A prática foi posta de lado de forma equivocada. Sem ela a aprendizagem não se consolida"

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